quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

CAPITULO SEXTO do conto

Aparece Cristo, trás o leite, mel e um sorriso que diz paz, abraça Maria com ternura e beija-lhe a face, pergunta-lhe acerca do seu conforto e sentam-se os dois no castanhal, ela tem amoras silvestres, figos e pão, ambos alimentam os seus corpos. Setembro chega vagaroso, com ele os dias mais amenos e o brama dos veados. Por estes tempos Cristo encontra o moleiro, este conta-lhe as novidades da aldeia e as curiosidades daquela gente exótica. É difícil chegar lá, mas os poucos que lá chegam do exterior são deveras peculiares, carregando uma aura de misticismo fazendo daquela aldeia um sítio de encontros, porto de chegada e de alucinação.

VISIONAMENTO

Na raridade do impossível
Na improbablidade da realidade
Ao visionamento no promontório
Até ao nascer de novo o dia

Juntam-se como gaivotas
Aglutina-se na maresia
Um sangue
Um povo
Uma menina...

A memória do mundo
A lembrança do céu
Um olhar profundo
Um esquecimento no bréu

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

ESTÁ LÁ PERTO

O sol põe-se na suave luz
A noite chega mansa
Como quem não quer vir
A paz se faz
Em algum lado

O sol nasce
Nasce o dia
Vem a luz
O meio-dia
As ondas embalam o teu sorriso

O cântico da ninfa
Para a inspiração
Lá longe quem estará
Lá perto não está decerto

Quem não viu naquele dia um estranho crepusculo?

Vamos para a rua
Cantamos mais uma vez
A liberdade é nossa
Dos poetas outra vez!

CAPITULO QUINTO do conto


Caminho lentamente pelas veredas estreitas dos bosques, sou apenas uma brisa que acaricia os cabelos de Maria e entra na mente de Cristo. A razão destas páginas talvez seja a mesma razão que leva estas duas almas a estar para lá da fronteira, apenas vida, apenas arte, apenas amor.
É de manhã e podemos ver Maria a tocar na água, enche uma tigela de madeira com o liquido transparente e lentamente deixa escorrer a cristalinidade da cabeça ate aos pés, repete várias vezes o gesto...Diluo-me na luminosidade morna da manhã. Sou a brisa que se estende pelo bosque e a célula de uma árvore milenar.

QUARTO CAPÍTULO do conto

Existem várias nascentes de água límpida e cristalina que brotam pelas encostas com toda a generosidade que a vida pode dar. Os dias naquelas longínquas paragens estendem-se por toda a paisagem grande.
Vestindo-se de várias tonalidades mediante a época do ano ou hora do dia as montanhas parecem meditar sobre o tempo e pelo espaço se espraiam até ao horizonte da realidade, a descrição que deixo dessa beleza e desse contraste com a atmosfera, é a do silêncio.
Estes irmãos são netos de um velho cantor rock de uma banda de garagem dos anos 90 sem sucesso comercial. Decidiu, depois das mais mirabolantes aventuras, voltar a este lugar inabitado e desconhecido, terra que descobrira ele nas suas viagens. Lá se instalou num velho casebre comendo frutos silvestres, pescando e caçando alguma galinhola ou perdiz que lhe vinha ter á mão. Divertindo a lua ao som de velhos blues e deixando-se acariciar pelo sol temperado do fim da tarde, este homem atinge a maturidade na companhia dos astros.
A aldeia mais próxima dista 40 km, parecendo ser um pórtico imaginário, fronteira do irreal. A estrada com alcatrão ainda é a 2 dias de marcha da aldeia através do labiríntico e acidentado bosque. É um caminho difícil para alguém que por engano lá passe. Não é raro ouvir algum uivo longo e melancólico na noite, fazendo arrepiar a espinha aos mais atrevidos ou incautos que intentam chegar á mitológica aldeia, fazendo-os desistir. Desconhecido, este recanto do mundo permanecia afastado de todos os contaminantes da civilização pós-moderna mantendo a exuberância de toda a fauna e flora intocável.

domingo, 9 de novembro de 2008

TERCEIRO CAPITULO do conto

Sei que já se pergunta por aí como Maria obtém os alimentos, pois é...Nossas mentes são demasiado preocupadas e lá terei eu de me trabalhar na discrição desses pormenores para saciar a curiosidade de tal pergunta. Ora bem, Maria tem por passatempo e gosto a observação e estudo do reino plantea dedicando-se ao cultivo de um horto com os mais variados tipos de vegetais, fruta e flores de todas as cores. A área envolvente é rica em árvores de fruto, macieiras, pereiras, figueiras, abrunheiros, oliveiras, videiras, enormes e velhas nogueiras, amendoeiras, grandes amoreiras, extensos soutos de castanheiros alguns com mais de 1000 anos, viçosos medronheiros, algumas laranjeiras, além disso Maria é vegetariana, incapaz de comer carne mas bebendo o leite das cabras do seu irmão. Cristo tem algumas cabras deixando-as á solta pela área circundante ordenhando o leite quando é necessário e abrigando-as das intempéries, e dos lobos, Cristo quando necessário troca algum cabrito ou algum queijo que fabrica artesanalmente por farinha e azeite a um velho moleiro que ainda mói o seu grão num velho moinho do rio, é a única alma que ali vai durante meses a fio. Maria utiliza essa farinha para fazer um pão delicioso. Cristo tem também algumas galinhas e patos que vivem dentro de um pequeno cercado junto a um pequeno lago onde os patos podem ter o gosto de nadar, são alvo da cobiça das furtivas raposas que constantemente maquinam maneiras de levar alguma presa e algumas vezes conseguindo, atravessando a barreira de vigilância de Guru, o cão lobo, companheiro fiel e inseparável. Enormes e gordas trutas, enguias, bordalos, bogas, apenas alguns espécimes que vivem no nosso rio. Menu rico e saudável é este, complementado pelo medicinal e raro mel que a misteriosa e organizada civilização das abelhas oferece como uma bênção dourada.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

SEGUNDO CAPITULO do conto

Não lhe apetece vestir, gosta de vaguear nua pela floresta, sentir a natureza tocar-lhe e nela se diluir, sente-se como Eva antes do pecado original. Vive numa casa antiga de pedra xisto, antigo palheiro que estava quase a cair e que ela própria recuperou com a ajuda de Cristo seu irmão que vive noutra casa pedregosa das redondezas. Maria escreve poesia e contos, pinta quadros á luz da tarde e sonha, sonha deitada na erva e nas flores primaveris dos lameiros e vales profundos das montanhas, monstros verdes e intransponíveis para toda uma sociedade que se degladia diariamente por um punhado de metal, papel ou plástico. Não compreendendo tais sarilhos nem sabendo como agir em tal mundo, Maria decidiu retirar-se de tal sítio e dedicar-se a viver ao sabor da brisa da bem-aventurança, já nem sequer se lembra quem é o excelentíssimo senhor Presidente da república, quando Joana a visitou, amiga de infância, e lhe contou o que se passava em tal mundo distante, Maria não entendia diversas coisas e nem sequer percebia as razões de tais dificuldades e complicações, pois a vida que Maria conhece já não é mais essa vida escura, envolta em fumo de veículos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

PRIMEIRO CAPITULO do conto

Sonhando as realidades paralelas na própria vida, reflexo das vivências, retratos singulares como páginas dos livros esquecidos e de memórias idas nos confins infinitos da consciência universal.

Maria, uma simples mulher, sabedoria na ponta da unha, por pouco não descobriu que eu escrevia sobre ela, é que ela mesmo imaginada adquiria vida própria e consegue, através do amor que eu imprimo ao escrever estas páginas, consegue mover-se por conta própria, algo que me fascina nela é a sua capacidade de olhar ou de ver sem usar os olhos e o seu principal aroma é a fruta temporã que colhe para seu regaço com a felicidade divina de um ser humano.
Amanhece, um amanhecer fresco de verão, prelúdio de um dia quente e completo, é daqueles dias que entendemos que estamos vivos e no nosso intimo agradecemos essa oportunidade. Maria acorda devagar, abre a janela, olha o rio que passa vagaroso e calmo, saboreando todas as curvas serpenteantes do seu leito e afagando as margens da terra refrescada pela madrugada. Maria ouve a manhã, como se de uma sinfonia paradisíaca composta por anjos se tratasse, são os pássaros de espécimes diversas que dão os acordes principais, deliciada enche os pulmões de ar e abre os braços como que abraçando a luz e diz: - Amo-te! Sim, ela ama, ama a vida e alegra-se na simplicidade colorida de uma flor ou no pousar de uma borboleta, no labor de uma abelha ou no teu olhar terno quando partilhas um beijo.

Levitação

Registo de andamento nos alvores do primeiro pulsar,
Ao deslize intemporal da realidade crua,
Deitado sobre as rochas graníticas
flui ares de dormência,

Na levitação estrelar toca-se a madrugada,
Ganha-se o espaço,
Ouvem-se as árvores

Danças vestida com as flores,
Fazes a luz balouçar na doce crença da existência,
produzindo,
na fábrica da imaginação,
os sonhos.

Libertos do mundo somos toda a natureza e é na fronteira que te encontro.

domingo, 11 de maio de 2008

Hoje é real











Luz da noite do infinito universo

Escuridão do dia

Escrevendo um verso

Ouvindo o silêncio da aura selvagem

Ouvi o silêncio no universo

Antes de tudo

Antes do verso


Hoje foi real

Tudo como um sonho

Antes era novo

Agora mais velho

Quem ouviu, ouviu

Quem partiu

Partiu.

Ao anoitecer...



Seguem caminhos opostos


E no intímo transportam o núcleo cosmico

Ao longo da brancura inicial


A luminosidade estrelar

Afecta humanos e lobos ao anoitecer